Bilhete azul antes da hora

Autor: Darci Garçon
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No convívio com pessoas conhecidas, pergunto de maneira direta: “se você for demitido hoje, o que vai fazer na vida?

Para uma pergunta tão desagradável, regra geral, a resposta é um sorriso “amarelo”. O resto é silêncio, porque as pessoas não estão preparadas e não têm plano emergencial para a eventualidade do desemprego inesperado. Quais as razões disso?

Em primeiro lugar, por se tratar de um assunto que aborrece. Pensar no futuro cria insegurança, provoca arrepios, assusta. Depois, pela preguiça, pela falta de visão ou de certeza de que, mais cedo ou mais tarde, isso acontecerá; pelo conforto proporcionado por um emprego aparentemente seguro ou por um bom plano de benefícios. Não pensar nisso permite às pessoas trabalharem sossegadas e... dormirem mais tranqüilas.

E aí vem a má notícia. Apanhada de surpresa, a pessoa ficará pasma, sem rumo, traumatizada com a “injustiça”. O mal estar passa para a família que, a partir desse momento, começa a sofrer com o infeliz. Eis que secou a fonte de recursos.

Importar-se com o futuro é necessário a vida toda, principalmente, a partir dos quarenta anos de idade. Sabemos que planejar a carreira durante a vida executiva precisa ser um processo permanente. Mas também precisamos ter um plano B ou opções de carreira ou trabalho para o pós-emprego, que precisam ser pensadas continuamente, o mais cedo possível. Necessariamente, antes do período de transição de carreira, este eufemismo que se criou para mascarar a palavra desemprego.

Emprego perdido. Quando é dispensável ganhar dinheiro, recomenda-se pensar num plano de ocupação, trabalho voluntário, por exemplo, que ajude a evitar a depressão e outros males decorrentes do ócio. Quando a idade começar a conflitar com os perfis de cargos e é necessário garantir a sobrevivência, o melhor caminho é o de dar vazão ao espírito empreendedor, latente em todos nós. Como é isto? Isso ocorre sob duas condições simples de serem explicadas, quando se dá um conselho, mas difíceis de serem colocadas em prática:

1. O que vou fazer?

Pense num “produto”. Entenda “produto” como qualquer serviço, ação ou empreendimento que lhe proporcione rendimentos, enquanto empreendedor. Sozinho ou com o menor número possível de sócios. Antes de mais nada, deverá ser algo que você conheça e goste de fazer. Isto lhe dará maior segurança na venda de seu “produto”, você poderá garantir qualidade e poderá explorar a sua rede de relacionamento para vendê-lo.

A descoberta desse “produto” não necessita e nem deve ser conseqüência de uma decisão apressada. Uma vez descoberto, você deverá trabalhá-lo de tal forma que se sinta orgulhoso dele e o considere o melhor do mercado. A idéia luminosa se concretizará por meio de reflexão, pesquisa de mercado, consulta e troca de idéias com outros. Jamais se atire em uma aventura, se não estiver absolutamente convencido de que ela dará certo, principalmente se houver dinheiro em jogo.

2. Como vou fazer?

Arme-se de disciplina. Assim: seja centrado, persistente, determinado, metódico e exigente. Essas atitudes deverão caracterizar seu comportamento daí para frente. Atire-se no mercado, já consciente de que vender é condição essencial para a sobrevivência de qualquer empreendedor. Aproveite ao máximo o networking que, certamente, você soube preservar ao longo de sua vida executiva.

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Se fosse possível prever, isto tudo deveria começar dois anos antes do bilhete azul, com tempo para colocar as finanças pessoais em dia e constituir um caixa para bancar os investimentos e as despesas no período sem remuneração. Estime que, sendo um “produto” de sucesso, você levará, pelo menos, um ano para começar a ter algum retorno financeiro do capital e do esforço investidos.

Mas, como é impossível prever o inesperado, e se você já chegou aos 40 anos e está empregado, comece a elaborar o seu plano B mesmo assim, ainda que acredite que competências especiais ou prestígio possam lhe garantir um novo emprego, rapidamente. Quem sabe, bafejado pela escolha feliz de um ótimo “produto”, favorecido pela descoberta de um nicho sensacional ou até mesmo pela sorte, você possa colocá-lo em prática tornando-se um empreendedor de sucesso. Então, você poderá até se antecipar, abrindo mão do emprego, por iniciativa própria, evitando a situação desagradável e constrangedora de receber um bilhete azul, inesperadamente.

Observação: Este artigo atingirá o seu objetivo se, pelo menos, despertar as pessoas para o seguinte fato: tudo nesta vida é transitório, o emprego mais ainda; por isso é preciso estar atento.

*Formado em Pedagogia pela USP, Darci Garçon é head hunter, sócio-diretor da TAG Consultores trabalha há 40 anos em Recursos Humanos.

02/12/04

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