O lado dramatúrgico da gerência

Autor: Darci Garçon
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A atuação de  políticos   brasileiros nos últimos  tempos é a   melhor demonstração do  talento dramático que as pessoas têm.  Um teatro. Pura encenação.

Apregoa-se que uma das condições básicas da sobrevivência de um profissional numa empresa é a de que se adapte à sua cultura. E é verdade. Contudo, quando se define o que é cultura, pensa-se logo no seu lado bom que é a somatória dos valores, das ações e atitudes   positivas irradiadas pelos   acionistas, diretores e demais colaboradores. Eles dão forma ao “clima” interno  que  tornará essa empresa melhor ou pior para se trabalhar.

Mas, pensando bem, a cultura  corporativa comporta uma outra faceta poucas vezes levada em conta, nunca mencionada ou  percebida, porém, não menos  importante. E, percebê-la e integrar-se a ela é o que,  de fato, garantirá vínculo empregatício duradouro.  Estamos falando na forma como as pessoas  agem    desempenhando  papéis, procurando mostrar-se como querem ser vistas pelos demais*.   

Com esse foco,  toda  empresa pode ser vista como  um grande teatro   composta por  atores  e por platéia,  na qual a execução das tarefas e a busca de resultados são  detalhes. Os atores agem e procedem encenando como se estivessem num espetáculo teatral,  impelidos por  aspirações jamais declaradas. É este lado da  cultura empresarial que queremos mostrar,  pois, é por aí que se identifica um lado ruim do mundo corporativo no qual se misturam  busca de poder, ascensão,  status, prestigio e vantagens materiais. É por  onde correm a vaidade, a tentativa de  dominar as informações e o esforço para a assegurar o  emprego.

É preciso  ter perspicácia e intuição  para perceber essas simulações e  habilidade para  se amoldar a elas. Sim é isso: não só aceitá-las, como  ter aptidão para também encenar. De outra forma, corre-se o risco de não completar o período de experiência...

E  mais. Uma das competências mais valorizadas pelas empresas nos tempos atuais é a  Lealdade. E quando as empresa definem essa competência,  não dizem, mas devem inferir que esperam que  as pessoas   compreendam esse lado da cultura e o  aceitem com naturalidade. E que sejam capazes  de participar da representação, o que influirá em muito na manutenção do emprego  e na carreira.

Imagine o chefe autoritário e  controlador de outros tempos mas que ainda hoje sobrevive.  Pode ser assim porque  imagina que só dessa forma as pessoas reconhecem  quem  tem a autoridade. Ou poderá ser uma pessoa insegura, despreparada, um incompetente que vê na arrogância a  maneira  de manter a distância da platéia e não correr  risco de ser desmascarado. Está desempenhando um papel, está encenando, dramatizando com alguma intenção não declarada mas passível de ser percebida.

Um tipo mais comum é o assoberbado. Fala incansavelmente ao celular, corre de um lado para o outro com a pasta cheia de papéis debaixo do braço, reuniões e mais reuniões. Este é o que quer mostrar-se como um trabalhador incansável,  o mais competente,  o indispensável, daí fazendo por merecer reconhecimento por meio de bônus,   promoção ou uma melhoria  qualquer no seu status.

A atitude de procurar impor uma imagem de si mesmo é uma realidade  em qualquer  lugar onde haja espectadores. E a essência da coisa, segundo Goffman,  é a seguinte: o ator encena acreditando que ele é assim mesmo e sua platéia crê nele. Trata-se de uma relação “sincera”. Ou, o ator encena fingindo  acreditar em si próprio e não lhe interessando o que a platéia pensa.  E a platéia também finge   acreditar  na encenação. Neste caso, estabelece-se uma relação “cínica”.

O mundo corporativo tem o seu lado  folclórico por que abriga  diferentes tipos  de personalidade   interpretando papéis, uns mais cínicos outros mais sinceros. Certamente, no trabalho somos diferentes do que somos em casa. No convívio com os colegas do futebol a dramaturgia é uma. Com os do tênis, é outra. No clube somos diferentes do que somos no trabalho. Desempenhamos um papel para cada situação social vivenciada naquele exato momento, adaptamo-lo a cada circunstância, procurando projetar a aparência que queremos que seja percebida pela platéia.

Essa maleabilidade, esse “jogo de cintura” aprende-se naturalmente pela própria necessidade de sobrevivência  e por meio da  simples observação, ao longo da existência e é fundamental  para a convivência em qualquer ambiente.  Certamente, essa aprendizagem é balizada por uma série de fatores, principalmente o cultural, vividos pela pessoa durante a sua existência que, por sua vez, dosarão o quanto será cínica ou quanto sincera. 

Em todo caso,  vale a pena avaliar se  o exercício do talento dramático na empresa tem mais importância do que a competência técnica e gerencial e se os melhores atores têm mais sucesso. Todos  ouvimos falar de  profissionais que  chegaram na empresa como “salvadores da pátria”  e acabaram afundando-a ainda mais.   E muitas deles conseguem novos empregos e estão sempre na mídia...  

Já que encenar é preciso, o desejável é que o profissional  deveria comportar-se  com absoluta naturalidade,  sem utilizar-se de  artifícios para mostrar-se melhor do que é  e para  ser reconhecido por seus méritos; deveria  agir com transparência  despojando-se de artifícios para alcançar objetivos não declarados.  

Penso que não é conveniente permanecer a vida inteira na “moita” e que é possível combinar um pouco do líder low profile do Golleman** com um pouquinho de marketing pessoal, mas sendo acessível em qualquer circunstância,  estando aberto a críticas, sabendo ouvir, evitando alarde das próprias qualidades, não se expondo exageradamente, dando conta do trabalho com eficácia. E sem perder a dignidade. Nunca.

* A representação do eu na vida cotidiana – Irving Goffman – Ed. Vozes
** Empresas feitas para vencer – Jim Collins  -  Ed. Campus
*** Formado em Pedagogia pela USP, Darci Garçon é head hunter, sócio-diretor da TAG Consultores trabalha há 40 anos em Recursos Humanos.

3/1/06

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