O networking e a busca de emprego

Autor: Darci Garçon
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Dados atuais fornecidos pela LHH/DBM e Lenz Minarelli, duas prestigiosas consultorias em outplacement, mostram que, por volta de 80%  das recolocações dos seus assessorados em transição de carreira ocorrem por intermédio do networking, ou seja, pelo contato pessoal. Outras fontes informam que doze por cento das recolocações ocorrem com a participação de consultorias de seleção e 9% por meio de outros canais, incluindo sites especializados em divulgar curriculos gratuitamente e redes sociais via internet..

Sem dúvida, esses dados confirmam o que se tem dito e ouvido ao longo dos últimos anos a respeito de networking. E, como veremos adiante, se de fato, o relacionamento pessoal é importante para a nossa sobrevivência neste planeta, também o é para iniciar ou dar continuidade a uma carreira profissional.

Esse tema tem sido bastante explorado e, hoje, dizer que é preciso ter e manter uma rede de relacionamento pessoal bem estruturada já me parece que é dizer o óbvio. Todo mundo sabe disso mas, na realidade, pelo que temos visto ao longo destes anos trabalhando com pessoas, uma coisa é concordar que essa é uma obviedade e a outra é ter essa rede de fato constituída.

Mesmo porque não é fácil construí-la. Trata-se de um esforço prolongado e contínuo que deve ter inicio a partir dos anos finais do período escolar e desde os primeiros empregos. Afora os contatos individualizados, participação em eventos das mais diferentes naturezas onde haja diversos participantes, cria oportunidades de aproximação e a troca de business card, o que é uma ocorrência formal mas necessária. Estes tipos de eventos coletivos têm uma interpretação curiosa, interessante e apropriada, apresentada por Leonard Mlodinow, no seu livro Subliminar, quando fala sobre grupos de apoio:

“A participação em grupos de apoio é reflexo da necessidade humana de se associar com outros; de nosso desejo fundamental de apoio, aprovação e amizade. Somos acima de tudo uma espécie social. As relações sociais são tão importantes para os seres humanos que a falta de ligações sociais constitui o principal fator de risco para a saúde, comparando-se aos efeitos do cigarro, pressão arterial, obesidade e falta de atividade física”.

Entendamos “grupos de apoio” como algo próximo ou similar a redes de relacionamente. Insistindo, não é novidade para ninguém que rede de relacionamento não é algo que se constrói às pressas, de um dia para o outro, em situação de desespero. Ao contrário, deve ser constituída ao longo dos anos e requer um trabalho de paciência que começa com exposição. Ou seja, cada pessoa deve desenvolver um esforço planejado para marcar presença e ser notado positivamente pelos demais indivíduos ou pelo grupo social do qual procura se aproximar.

Vejamos um exemplo que é atípico no geral mas é peculiar aos profissionais de Recursos Humanos. Os RHs constituem e participam de grupos chamados de informais. No Estado de São Paulo há por volta de cem desses grupos que se organizam para trocar experiências mas acabam proporcionando aos seus integrantes muito mais do que isso, incluindo, ajuda e solidariedade como consequência do aprofundamento do relacionamento pessoal que o convívio proporciona. Sem querer comparar, menciono novamente Mlodinow que fala também sobre “grupos de cafuné”: “entre os macacos, os grupos de cafuné limpam-se uns aos outros regularmente, removendo sujeira, pele morta, insetos e outros objetos, fazendo carícias, esfregando e massageando”. O cafuné é feito pelo que ele chama de “toque” que é uma ação importante para eles “cultivarem as relações sociais”. Pensando melhor, excetuando-se o “toque”, parece que há uma certa semelhança entre esses grupos informais e os grupos de cafuné...

A já citada exposição não depende exclusivamente do esforço planejado e nem garante sucesso na constituição de uma rede social útil e proveitosa. Depende, e muito, da criação e manutenção de reputação positiva que é fundamentada em algumas características pessoais saudáveis que geram a empatia. Ganhar reputação significa ser visto com bons olhos, como pessoa confiável, de bom caráter. Por outro lado, empatia é um atributo fundamental no relacionamento humano e tem inimigos ferrenhos, entre outros, o ego distorcido ou a arrogância, prolixidade, encenação, falta de transparência e o baixo astral.

Duas questões

A primeira, como estamos vivendo ainda no auge da era da recomendação e do boca a boca, é conveniente saber como anda a sua reputação no meio em que vive, refletindo sobre as seguintes questões: você tem amigos ? Você é bem recebido ou evitado nos locais onde encontra conhecidos ? Alguém pede a sua opinião sobre qualquer assunto ? Você participa de atividades sociais ? Você tenta ou facilita a aproximação com pessoas, mesmo que não as conheça ? Ou, como perguntaria Mlodinow: você consegue “apoio, aprovação e amizade” das pessoas que estão próximas ?

Se não for tão fácil chegar a conclusões, outra alternativa é buscar feedbacks, ou seja, procurar pessoas que o conheçam e solicitar a opinião delas a seu respeito, mesmo porque o mais provável é que a imagem que você projeta de si próprio não bata com a sua imagem vista pelos outros. Afora isso, em algumas circunstancias tendemos a dramatizar, ou seja, nos esforçamos para mostrar aos espectadores que nos cercam uma determinada imagem que não corresponde à realidade. E isso é facilmente perceptível, fato que dificulta a conquista de credibilidade e provoca a rejeição e o afastamento das pessoas. Por último, asseguro que dificilmente alguém lhe dará um feedback espontaneamente, porque não é prazeroso fazê-lo.

A segunda questão está relacionada com o avanço da tecnologia. A comunicação virtual é uma realidade e está impactando fortemente nas novas gerações e, a seguir nesse rumo, logo logo, o networking será apenas virtual extinguindo de vez a importância do “toque” e dos “grupos de cafuné” no relacionamanento pessoal. Mas enquanto isto não acontece e os números da LHH/DBM e da Lenz Minarelli continuarem nesses patamares, o negócio é apostar fundo numa boa rede de relacionamento pessoal.

DG tag.dgarcon@uol.com.br

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